DONJUAN: Anitta, do Brasil para o mundo! (Traduzido)

Anitta concedeu uma entrevista para a revista colombiana DONJUAN. Confira:

Você começou sua carreira no funk carioca, um gênero musical e um fenômeno cultural desconhecido para os colombianos.

O que acontece com o funk no Brasil é o mesmo que com o reggaeton na Colômbia.  Se você quer saber o que é o funk, sua tradição e como as pessoas vivem,  é só você ver como eles fazem reggaeton nos bairros, mas você muda o ritmo e canta em Português [risos].  O funk é ouvido muito em festas que acontecem em favelas onde muitas pessoas se reúnem;  Às vezes é um pouco perigoso, mas é um costume nas ruas do Brasil.  Pense em uma festa semanal: toda semana as pessoas saem nas ruas dançando, porque esse é o tipo de entretenimento para quem mora nas favelas e não pode pagar por outras festas.

Qual foi a sua primeira festa funk?

Oh meu deus!  Eu acho que eu tinha treze ou quatorze anos.  Eram as festas que fizemos com os amigos do bairro.  Como o que eu mais gosto de fazer e o que eu sempre fiz foi dançar, eu me diverti muito.  Já depois comecei a cantar também em bairros, naqueles mesmos partidos.

Mas antes você cantava em coros religiosos …

Sim, eu cantei nas igrejas quando era criança.  Meu avô foi quem me levou.  Ele sabia tocar o órgão, então eu o acompanhei e me envolvi com a música gospel.  Nós éramos católicos e, se você me perguntar, acho que a primeira coisa que eu cantei foram aquelas músicas como “eu vou elogiar, vou elogiar” [risos].

Nunca se interessou em seguir os passos do seu avô?

Ele tentou me ensinar a tocar órgão e eu aprendi a ler as partituras … Mas quando eu estava começando a tocar, ele se foi, morreu e eu não queria continuar aprendendo.  Mas eu nunca parei de cantar.

A dança fazia parte de sua vida também.

Sim, sei dançar salsa, tango, bolero.  Tudo.  O que acontece é que eu vivi em um bairro muito humilde e o plano que eu sempre fui com minha mãe eram as aulas de dança em pares que eram dadas perto de nossa casa.  Nós íamos  duas ou três vezes por semana e aprendemos a dançar qualquer coisa.

A primeira vez que assinou um contrato foi porque um produtor de funk viu em um vídeo do YouTube.  Como foi esse vídeo?

Isso foi em 2010. Eu tinha 17 anos e publiquei um vídeo em que cantei um funk muito popular, mas muito local, que tocava apenas nos bairros do Rio de Janeiro.  Eu fingi que um perfume era meu microfone!  O que acabou acontecendo é que algumas pessoas que trabalharam em um programa de funk assistiram ao vídeo e me ligaram, então comecei a trabalhar com elas.  Então fiz uma música minha e comecei a me fazer conhecer no Brasil.

O vídeo foi uma brincadeira ou um plano para você conhecer?

Foi um plano.  Tudo na minha vida foi calculado: cada sentença, cada decisão que tomo faz parte de um plano para chegar onde estou agora.  Eu gostava de dançar muito, mas estudei administração, e como o entretenimento é um negócio, consegui desenvolver meu próprio plano de marketing, sem depender de ninguém.

E quem lhe ensinou a ser assim?

Eu não sei!  Ninguém na minha família é assim.  Nasci com esse jeito de ser, com essa obsessão de planejar cada movimento, como se fosse uma estratégia.

Nos seus primeiros vídeos, de músicas como Menina Má ou Show das Poderosas, você começou a assumir a imagem de uma mulher muito sexual, mas também muito independente.  Como foi para você se tornar um “símbolo sexual”?

Eu sempre fui muito sexual.  Quando eu era adolescente, adorava dançar com sensualidade, adorava seduzir.  Eu gosto de ser assim, eu gosto disso.  No entanto, também foi difícil, porque durante muito tempo no Brasil não havia um grande artista comercial e popular que tivesse um sex appeal tão explícito.  Quando comecei a ser conhecida, sofri muito preconceito de pessoas, homens e mulheres.  Eles disseram que era muito vulgar, que eu estava mostrando muito o corpo, porque eu fiz twerking se era um movimento sexual … Mas eu não me importo, cara!  É o que eu gosto de fazer.  E eu não canto apenas porque gosto de música, também faço isso porque gosto da ideia de mostrar uma mulher livre e independente.  Às vezes eu apenas digo coisas para provocar discussão e controvérsia, para que as pessoas entendam que existem pessoas diferentes, que pensam de forma diferente, e que eu tenho um bem, que há espaço para todos.

Embora já fosse reconhecida no Brasil, o resto da América Latina começou a ouvir de você em 2016, quando fez um remix de Ginza com J Balvin.  Você já ouvia reggaeton?

Na verdade não.  Eu acho que a primeira música de reggaeton que eu ouvi na minha vida foi Ginza, precisamente.  O que acontece é que naquela época nem o funk soou na América Latina nem o reggaeton soou no Brasil.  Obviamente, às vezes Gasolina soava nas festas, mas nada mais.

Ouvi dizer que esta colaboração foi possível graças a uma mensagem que você enviou para J Balvin no Instagram.  Foi outro desses movimentos calculados de sua carreira?

Sim, exato.  Eu estava na casa de Neymar Jr., na Espanha, e Ginza começou a tocar.  Então eu perguntei a ele: “Que música é essa?”  Lá comecei a conhecer o trabalho de J Balvin e, como adorei, segui ele no Instagram, enviei-lhe uma mensagem e ele me respondeu.  Eu disse a ele que toda vez que viajei e ouvia músicas de reggaeton, percebi que o próximo grande fenômeno musical do mundo seria reggaeton e música espanhola.  Era uma questão de números, porque há muitas pessoas que falam espanhol.  Mas como o Brasil também é um mercado enorme onde o reggaeton não explodiu, fizemos uma troca: apresentei J Balvin e Maluma no Brasil e eles me apresentaram à Colômbia.

Qual foi a primeira vez que você veio para a Colômbia?

Cerca de dois anos atrás, quando gravei o vídeo de Machika com J Balvin, em Medellín.  Foi uma experiência incrível porque o Brasil é muito parecido com a Colômbia: as ruas e os bairros são os mesmos, o jeito de ser das pessoas é praticamente o mesmo.  Toda vez que vou a Medellín me sinto no Rio de Janeiro, e toda vez que estou em Bogotá sinto que é como se estivesse em São Paulo … Enfim, em Medellín me senti em casa.

Você já está festejando na Colômbia?

Não!  Mas eu não posso ficar sem isso.

Nos últimos dois anos, sua música explodiu em todo o mundo e colaborou com dezenas de artistas, colaborou com Madonna, Faz Gostoso.

Foi incrivel!  Eu cresci sabendo a importância que ela tinha para as mulheres: ela é um símbolo de esforço e uma luta para que a mulher pudesse se expressar sexualmente da maneira que quisesse.  Ela é parcialmente responsável pela liberdade que temos hoje.

E este ano, para o seu novo álbum, fez uma música com o Snoop Dogg.

Eu não estava esperando por isso também.  Ele assistiu Vai Anitta, a série da Netflix sobre a minha vida, até que um dia ele me ligou e disse: “Anitta, eu sou sua fã, quero trabalhar com você”.  E eu: “Ok, vamos fazer algo juntos!” Eu parecia muito séria, mas a verdade é que desde que eu era adolescente eu era louca por ele.

Com quem falta você trabalhar?
Ahhh!  Com o Drake!

Agora você estava falando sobre Vai Anitta, a série de documentários sobre você no Netflix.  Foi idéia sua?

Sim. Eu queria mostrar às pessoas que, além de cantar e dançar, eu também sou compositora, sou minha próprioa empresária, tomo minhas decisões e faço parte de todo o negócio de entretenimento que está ao redor do meu trabalho.  Eu acho que é uma maneira de inspirar.  Já estamos trabalhando na segunda temporada, vamos começar a gravar em breve.

Como artista, você conseguiu estar em um lugar muito interessante onde a música do Brasil se mistura com a dos outros países da América Latina, mas também com eletrônica ou rap.  Como você define a identidade musical deste continente?

Os latinos sentem muito.  Nossa música parece, não é uma fórmula, mas temos que viver a arte que fazemos.  E nós gostamos disso.  Eu acho que o calor que estabelecemos em qualquer relacionamento, a familiaridade com a qual somos tratados, se reflete na música que fazemos.

Fonte: revista DONJUAN

Tradução: Anitta Daily

Anitta Daily